
Conheça a história por trás do Aeroporto de Concórdia
Após 70 anos da abertura do Aeroporto de Concórdia, poucas pessoas ainda sabem como ele surgiu.

Quando alguém pergunta como surgiu o Aeroporto Municipal Olavo Cecco Rigon, a resposta mais comum costuma ser simples: "ele foi inaugurado em 22 de julho de 1956".
Historicamente, essa data está correta. Mas ela conta apenas o último capítulo de uma história que começou anos antes.
Na realidade, o aeroporto não nasceu por acaso, nem apenas porque Concórdia precisava de uma ligação aérea. Sua origem está profundamente conectada ao crescimento da Sadia, ao desenvolvimento econômico do Oeste Catarinense e, principalmente, à visão de um jovem piloto chamado Omar Fontana, filho do fundador da Sadia, Attilio Fontana.
Mais do que contar a história de uma pista de pouso, compreender o nascimento do aeroporto é entender como um problema logístico enfrentado por uma indústria de alimentos deu origem a uma companhia aérea que, anos depois, seria conhecida em todo o Brasil como Transbrasil.
Na década de 1950, Concórdia vivia uma transformação sem precedentes.
A colonização do Oeste Catarinense já estava consolidada e a economia regional crescia impulsionada pela agricultura, pela suinocultura e pela industrialização dos alimentos. No centro desse desenvolvimento estava a Sadia, fundada por Attilio Fontana em 1944.
O frigorífico aumentava sua produção ano após ano e conquistava novos mercados consumidores, principalmente na cidade de São Paulo.
Mas existia um enorme problema.
Entre Concórdia e São Paulo havia centenas de quilômetros de estradas precárias. Boa parte dos trajetos ainda era de chão batido. As viagens eram lentas, sujeitas às condições climáticas e podiam levar vários dias. Para uma empresa que produzia alimentos perecíveis, tempo significava qualidade, competitividade e lucro.
Era necessário encontrar uma solução completamente diferente da existente.
Enquanto muitos enxergavam apenas um problema logístico, Omar Fontana via uma oportunidade.
Apaixonado por aviação desde muito jovem e piloto habilitado, ele acreditava que o avião poderia fazer muito mais do que transportar passageiros.
Ele poderia transportar desenvolvimento.
Segundo diversos relatos históricos, Omar observou que um Douglas DC-3 da Panair do Brasil permanecia parado durante parte da semana no aeroporto de Joaçaba. A ideia parecia simples, mas era revolucionária para a época: por que não utilizar aquela aeronave para levar carnes produzidas em Concórdia diretamente para São Paulo?
O plano foi colocado em prática.
Os primeiros voos experimentais mostraram que aquilo que antes levava dias para chegar ao mercado consumidor poderia ser transportado em apenas algumas horas.
Naquele instante, a aviação deixava de ser apenas um meio de transporte. Ela tornava-se uma estratégia empresarial.
Um detalhe frequentemente esquecido é que a história da aviação ligada à Sadia começou antes da criação da Sadia Transportes Aéreos.
Os primeiros voos eram operações experimentais.
Não existia companhia aérea. Não existia uma malha regular. Muito menos uma estrutura aeroportuária semelhante à atual.
Existia apenas uma necessidade urgente de transportar produtos e um empresário disposto a desafiar o modelo logístico existente.
Foi essa experiência que demonstrou que a aviação poderia transformar não apenas a Sadia, mas toda a região Oeste de Santa Catarina.
Os resultados obtidos com o transporte aéreo convenceram Omar Fontana de que aquela iniciativa precisava deixar de ser apenas uma solução logística.
A ideia saiu do papel em 5 de janeiro de 1955 com a criação oficial da Sadia S.A. Transportes Aéreos. Como a legislação exigia uma frota mínima de três aviões para homologar uma linha aérea regular, Omar comprou uma aeronave e arrendou outras duas.
A empresa nasceu em Concórdia e sua missão inicial era clara: transportar rapidamente os produtos da Sadia até os principais mercados consumidores do Brasil, mas Omar Fontana enxergava um futuro muito maior.
Enquanto a Sadia Transportes Aéreos operava provisoriamente em Joaçaba em 1955, uma força-tarefa histórica acontecia em Concórdia. Attilio Fontana firmou um convênio com o prefeito Fioravante Massolini para construir o aeroporto local.
A prefeitura entrou com o projeto e a Sadia forneceu o primeiro trator de esteira da história do município para rasgar os morros. Pela dureza do solo de basalto escuro da região, o canteiro de obras ganhou o apelido popular de Aeroporto Pedra Ferro.
O ano de 1956 ficou marcado a ferro e fogo na memória local:
O Primeiro Pouso (Março de 1956): Com as obras longe do fim e a pista contando com apenas 500 metros de terra e cascalho utilizáveis, o piloto João Carlos Meirelles desafiou o perigo e realizou o primeiro pouso na cidade, parando o município e virando manchete no jornal A Semana.
A Inauguração Oficial (Julho de 1956): A pista foi finalmente entregue com 1.300 metros de saibro. Porém, a festa deu lugar ao luto. Um avião da Perdigão (empresa coirmã na época) fez uma aproximação baixa demais, colidiu o trem de pouso em uma mureta de pedras na cabeceira e desgovernou-se contra a multidão, vitimando fatalmente um jovem espectador.
Com a pista operacional, os aviões da Sadia iam abarrotados de carne para o Sudeste, mas o retorno a Santa Catarina acontecia com os porões vazios.
Para otimizar a operação e, acima de tudo, economizar em tributos e aproveitar incentivos fiscais concedidos pelo governo federal às linhas aéreas mistas da época, a Sadia Transportes Aéreos expandiu sua atuação. Uma agência de passagens foi montada embaixo do Hotel Alvorada, e o transporte de cargas abriu espaço para o transporte regular de passageiros e malotes.
Essa divisão cresceu tanto que, em 1972, se transformaria na gigante e colorida Transbrasil.
Para acompanhar a evolução tecnológica da aviação — que abandonava os antigos DC-3 para adotar os modernos turboélices Dart Herald e aeronaves executivas mais pesadas —, a antiga pista de cascalho e saibro precisou evoluir. Ao longo das décadas seguintes, o aeródromo passou por um processo gradual de ampliação, nivelamento de seu trecho central estreito (o famoso formato "porta-aviões") e posterior pavimentação asfáltica, estendendo sua capacidade operacional para os atuais 1.480 metros de extensão.
Em 1970, a calmaria do aeroporto foi quebrada por uma das visitas mais ilustres de sua história. Logo após conquistar o tricampeonato mundial no México, Pelé e o capitão Carlos Alberto Torres pousaram em Concórdia a bordo de um voo turboélice da Sadia.
Acompanhados no avião pelo próprio Attilio Fontana, os craques faziam uma escala técnica antes de seguir viagem para a inauguração do estádio Colosso da Lagoa, na vizinha Erechim (RS), deixando uma lembrança eterna nos corações dos concordienses que correram para a pista.
A identidade do campo de pouso mudou oficialmente de patamar na década de 1980.
Deixando para trás a nomenclatura genérica de Aeroporto Municipal de Concórdia, a Câmara Municipal aprovou e oficializou a Lei nº 1.930/1984, rebatizando o local como Aeroporto Olavo Cecco Rigon, uma justa homenagem a uma das famílias tradicionais que impulsionaram a aviação e a proximidade comunitária na região.
Nas décadas que cruzaram a virada do milênio, o aeroporto consolidou-se como uma ferramenta de infraestrutura essencial para os voos executivos das grandes agroindústrias locais.
Contudo, foi outra missão, muito mais nobre, que ganhou destaque: o aeroporto de Concórdia tornou-se uma referência estadual na logística do Sistema Nacional de Transplantes. Pela agilidade de sua localização, o local passou a receber rotineiramente voos de aeronaves médicas para a captação rápida de órgãos, salvando vidas em todo o território brasileiro.
Chegando ao cenário atual entre 2025 e 2026, o Aeroporto Olavo Cecco Rigon recebe o merecido passaporte para o futuro. Por meio de um robusto convênio firmado entre o Governo do Estado de Santa Catarina e a Prefeitura Municipal, o aeródromo passa por uma ampla revitalização.
As obras incluem o recapeamento completo da pista asfáltica e a instalação do moderno sistema PAPI (Precision Approach Path Indicator) — um conjunto de luzes de cabeceira que garante maior precisão e segurança nos pousos.
Setenta anos após o primeiro trator da Sadia rasgar o solo de "Pedra Ferro", Concórdia continua provando que o seu destino é continuar voando alto.
Poucos aeroportos brasileiros possuem uma história tão singular quanto o de Concórdia.
Enquanto muitos nasceram exclusivamente por decisões governamentais ou demandas militares, o Aeroporto Municipal Olavo Cecco Rigon surgiu em um contexto de empreendedorismo, inovação e transformação econômica.
Sua história está diretamente ligada à visão de Attilio Fontana, ao espírito pioneiro de Omar Fontana e ao crescimento da Sadia.
Mais do que servir à cidade, o aeroporto tornou-se parte de um projeto muito maior: integrar o Oeste Catarinense ao Brasil e demonstrar que a aviação poderia ser um instrumento de desenvolvimento regional.
Foi dessa combinação entre indústria, logística e aviação que nasceu uma empresa destinada a entrar para a história. A Transbrasil pode ter se tornado uma gigante da aviação brasileira, mas suas raízes continuam fincadas em Concórdia, onde um frigorífico, um piloto visionário e um campo de pouso mudaram para sempre a história da cidade e da aviação nacional.
Esta pesquisa está em constante evolução. Ainda existem questões históricas importantes a serem respondidas, especialmente sobre o local exato das primeiras operações aéreas da Sadia entre 1953 e 1956, a cronologia da implantação do primeiro campo de pouso em Concórdia e sua relação com a inauguração oficial do aeroporto em 22 de julho de 1956. O objetivo deste Centro de Memória é reunir documentos oficiais, jornais da época, fotografias, plantas, registros da Sadia e depoimentos para oferecer a reconstrução histórica mais completa e rigorosa já realizada sobre a origem do Aeroporto Municipal Olavo Cecco Rigon.